30 Outubro, 2011

A TINTA VERMELHA #Occupy Wall Street

Discurso de Slavoj Žižek durante o Occupy Wall Street 


Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.

Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.

Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma nação cristã, lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.

Dirão que somos violentos, que nossa linguagem é violenta, referindo-se à ocupação e assim por diante. Sim, somos violentos, mas somente no mesmo sentido em que Mahatma Gandhi foi violento. Somos violentos porque queremos dar um basta no modo como as coisas andam – mas o que significa essa violência puramente simbólica quando comparada à violência necessária para sustentar o funcionamento constante do sistema capitalista global?

Seremos chamados de perdedores – mas os verdadeiros perdedores não estariam lá em Wall Street, os que se safaram com a ajuda de centenas de bilhões do nosso dinheiro? Vocês são chamados de socialistas, mas nos Estados Unidos já existe o socialismo para os ricos. Eles dirão que vocês não respeitam a propriedade privada, mas as especulações de Wall Street que levaram à queda de 2008 foram mais responsáveis pela extinção de propriedades privadas obtidas a duras penas do que se estivéssemos destruindo-as agora, dia e noite – pense nas centenas de casas hipotecadas…

Nós não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que merecidamente entrou em colapso em 1990 – e lembrem-se de que os comunistas que ainda detêm o poder atualmente governam o mais implacável dos capitalismos (na China). O sucesso do capitalismo chinês liderado pelo comunismo é um sinal abominável de que o casamento entre o capitalismo e a democracia está próximo do divórcio. Nós somos comunistas em um sentido apenas: nós nos importamos com os bens comuns – os da natureza, do conhecimento – que estão ameaçados pelo sistema.

Eles dirão que vocês estão sonhando, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar sendo o que são por um tempo indefinido, assim como ocorre com as mudanças cosméticas. Nós não estamos sonhando; nós acordamos de um sonho que está se transformando em pesadelo. Não estamos destruindo nada; somos apenas testemunhas de como o sistema está gradualmente destruindo a si próprio. Todos nós conhecemos a cena clássica dos desenhos animados: o gato chega à beira do precipício e continua caminhando, ignorando o fato de que não há chão sob suas patas; ele só começa a cair quando olha para baixo e vê o abismo. O que estamos fazendo é simplesmente levar os que estão no poder a olhar para baixo…

Então, a mudança é realmente possível? Hoje, o possível e o impossível são dispostos de maneira estranha. Nos domínios da liberdade pessoal e da tecnologia científica, o impossível está se tornando cada vez mais possível (ou pelo menos é o que nos dizem): “nada é impossível”, podemos ter sexo em suas mais perversas variações; arquivos inteiros de músicas, filmes e seriados de TV estão disponíveis para download; a viagem espacial está à venda para quem tiver dinheiro; podemos melhorar nossas habilidades físicas e psíquicas por meio de intervenções no genoma, e até mesmo realizar o sonho tecnognóstico de atingir a imortalidade transformando nossa identidade em um programa de computador. Por outro lado, no domínio das relações econômicas e sociais, somos bombardeados o tempo todo por um discurso do “você não pode” se envolver em atos políticos coletivos (que necessariamente terminam no terror totalitário), ou aderir ao antigo Estado de bem-estar social (ele nos transforma em não competitivos e leva à crise econômica), ou se isolar do mercado global etc. Quando medidas de austeridade são impostas, dizem-nos repetidas vezes que se trata apenas do que tem de ser feito. Quem sabe não chegou a hora de inverter as coordenadas do que é possível e impossível? Quem sabe não podemos ter mais solidariedade e assistência médica, já que não somos imortais?

Em meados de abril de 2011, a mídia revelou que o governo chinês havia proibido a exibição, em cinemas e na TV, de filmes que falassem de viagens no tempo e histórias paralelas, argumentando que elas trazem frivolidade para questões históricas sérias – até mesmo a fuga fictícia para uma realidade alternativa é considerada perigosa demais. Nós, do mundo Ocidental liberal, não precisamos de uma proibição tão explícita: a ideologia exerce poder material suficiente para evitar que narrativas históricas alternativas sejam interpretadas com o mínimo de seriedade. Para nós é fácil imaginar o fim do mundo – vide os inúmeros filmes apocalípticos –, mas não o fim do capitalismo.

Em uma velha piada da antiga República Democrática Alemã, um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que todas as suas correspondências serão lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.” E essa situação, não é a mesma que vivemos até hoje? Temos toda a liberdade que desejamos – a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual – “guerra ao terror”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos” etc. etc. – são termos FALSOS que mistificam nossa percepção da situação em vez de permitir que pensemos nela. Você, que está aqui presente, está dando a todos nós tinta vermelha.

17 Outubro, 2011

Isto não é um HD


Publicado no Link do Estadão online: http://blogs.estadao.com.br/link/isto-nao-e-um-hd/

Por Tatiana de Mello Dias

Artistas venezuelanos apresentam a obra “5 milhões de dólares, 1 terabyte”. Do lado de fora é só um HD externo. Do lado de dentro, uma fortuna em arquivos pirateados. E aí? É arte ou pirataria?
Final da década de 20. Na obra A Traição das Imagens, o pintor surrealista belga René Magritte estampou um cachimbo com os dizeres “Ceci n’est pas une pipe”, ou “isto não é um cachimbo”. Não, não era um cachimbo – mas uma imagem de um cachimbo.
2011. Um artista apresenta em uma galeria moderninha um HD externo de 1 terabyte. Não, aquilo não é um HD externo de 1 terabyte – mas cinco milhões de dólares. O HD está recheado de arquivos pirateados que, se fossem adquiridos legalmente, valeriam todo esse dinheiro. Aquilo é um HD externo ou são… US$ 5 milhões?
“Os artistas estão sempre forçando e redefinindo questões de arte e legalidade no contexto artístico. Nós estamos continuando essa história já estabelecida”, explica Moises Sanabria, cofundador do coletivo e galeria ART404, responsável pela obra 5 milhões de dólares, 1 terabyte, ao lado do jovem artista Manuel Palou. Os dois são venezuelanos, se conheceram em Miami e hoje moram em Nova York.
Torrent. Os artistas se inspiraram em um torrent cujo título era “US$ 20 mil”. “Nós ficamos fascinados com a ideia dos arquivos serem pequenos em um computador, mas caríssimos na vida real. Usando esse processo, nós criamos uma peça que fala sobre o valor dos dados digitais e as consequências na vida real de baixar ilegalmente esses arquivos”, diz o artista.
“Todos os arquivos estão livremente acessíveis em sites como The Pirate Bay e Megaupload”, diz o artista. Ele se considera um pirata – “assim como a maioria da internet”. “Nós concordamos que as leis de direitos autorais são necessárias, mas é muito difícil cumpri-las e controlar os usuários. Isso é uma coisa boa e ruim”, explica Sanabria.
Na vida real, o HD ficou exposto como escultura na galeria ART404, em Miami. Do lado de fora, o HD nada tem de diferente. Só que dentro há 1,016 GB de arquivos pirateados. São programas (como o pacote Adobe Font Collecion, que custa US$ 20 mil), games (como os 135 GB da coleção do Nintendo DS, que vale US$ 145 mil, e todos os jogos do Nintendo 64 ) e o Fiction Library, um programa que tem todos os livros de ficção científica publicados entre 2003 e 2011. Só isso valeria US$ 3 milhões.
“Cada geração tem suas ideias latentes sobre cultura e política. As novas gerações agora têm a habilidade de ver e discutir arte livremente na internet. Isso está tornando a arte contemporância uma ferramenta cada vez mais importante para trazer essas ideias à tona”, diz o artista.
Na vida virtual, os artistas colocaram na web um PDF com a lista completa dos arquivos que estava ali com os respectivos links para baixá-los – ilegalmente. Dizem não temer represálias. A lista foi divulgada, explica Sanabria, com fins de “documentação”. “Nós estamos tentando mostrar que a arte pode trazer à tona questões sobre legalidade sem comprometer a expressão artística”, diz o artista.
A obra foi a que mais teve repercussão entre as que estão expostas na galeria de arte moderna de Sanabria e Palou. Lá há trabalhos como um buda acessando o Facebook, poemas interativos e outras obras que brincam com os ambientes digitais e reais. “A cultura do remix, apropriações e, às vezes, o roubo descarado são resultados do ambiente livre da rede. Essa cultura livre mudou radicalmente o panorama de criatividade e expressões, incluindo práticas contemporâneas de arte”, diz Sanabria.
Há quem diga que o trabalho de Sanabria e seu companheiro, Manuel Palou, é só pirataria. Ou roubo. Quantos gigas de arquivos você tem em seu computador? Você poderia chamar isso de “R$ 100 mil, 200 GB”? Para eles, é arte. E para você?

06 Maio, 2011

A história das coisas

The Story of Stuff

04 Maio, 2011

A história da água engarrafada

The Story of Bottled Water

Filiação: Missão impossível?

Ao Deputado Federal por São Paulo,
 e Presidente do Partido Popular Socialista (PPS),
 Roberto Freire

Desde o inicio deste ano pretendo me filiar ao PPS (muito em função da atuação política do agora eleito Deputado Federal Roberto Freire).
No inicio desta semana entrei em contato com o diretório estadual de São Paulo, que me orientou a entrar em contato com o Sr. Claudinei Tirola (representante do partido em Osasco) em um nº de celular.
O número de celular não atende (tentei contata-lo todos os dias desde segunda-feira 02/05/2011).
Ao pesquisar sobre o Sr. Claudinei Tirola, tenho a imensa surpresa em saber que em Osasco o PPS está completamente alinhado ao PT, conforme noticia a seguir:

PPS reitera apoio
ao prefeito Emidio

Após receber a visita de componentes do Diretório Estadual do PPS, há um mês, o prefeito de Osasco, Emidio de Souza, recebeu em seu gabinete, na última segunda-feira, a visita dos membros do Diretório Municipal do partido em Osasco. Atualmente, o PPS de Osasco é presidido pelo promotor de eventos Claudinei Tirola, que assumiu a legenda há dois meses. Na oportunidade, o PPS de Osasco, que faz parte da base aliada ao prefeito Emidio desde o seu primeiro mandado, reiteirou seu apoio à administração petista. “Para Osasco, é importante que os partidos sejam fortalecidos e agradeço pelo apoio que sempre recebi do PPS no município”, disse o prefeito.

Disponível em: WebDiário 
A questão para a qual procuro resposta: seria missão impossível (ideológica e prática) filiar-se ao PPS na cidade de Osasco?

Atualização: 
ás 14hs40min recebi a seguinte mensagem do Deputado Roberto Freire via Twitter:
 : Encaminhei sua mensagem aos companheiros de SP para esclarecer situação do PPS em Osasco e resolver questão da filiação, @ abraços

19 Abril, 2011

A imperfeição do ser - A ética utilitarista como o caminho para o mal menor

“O coração do homem existe para reconciliar as contradições mais notórias.” David Hume
O egoísmo
   
Admito que sou egoísta. Para floreio e, talvez, maior aceitação por aquele que neste momento lê, poderia alegar que o egoísmo mencionado nada mais é do que instinto de sobrevivência, e tal alegação seria igualmente verdadeira, entretanto não pretendo utilizar floreios ou abrandar a mente de quem especta estas palavras.
O egoísmo a qual me refiro não deve ser enquadrado em juízos maniqueístas ou condenado à priori, pois estes filtros nada acrescentarão a compreensão de seu verdadeiro significado. Porém, longe de ser uma virtude, é o egoísmo a razão primeira para que eu esteja escrevendo a este texto. Novamente admito, sou egoísta.
Segundo Jeremy Bentham (1789) “A natureza colocou o gênero humano sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer.”, e assim o sendo todo o meu esforço, racional ou irracional, é para evitar a dor e prolongar o prazer. Dor e prazer, conceitos norteados por complexos valores subjetivos, são a base para toda e qualquer ação. Não existe sequer um movimento humano que escape a esta definição, pois todos, em rasa ou profunda análise, estarão subjugados a estes dois soberanos.

16 Abril, 2011

TRIO

A seguir trechos do roteiro "TRIO", original escrito em 2007.


1 INT. BARRACO

Seqüência. Chuva, as gotas caem. Vista aérea de um bairro de periferia. Pequena casa cheia de goteiras. Interior de uma panela onde uma bolha começa a surgir anunciando que logo a água estará fervendo. Ao lado da panela está a Madrasta. Ela está precariamente vestida, e sobre os lábios sobrecarregados de batom barato há um cigarro.

MADRASTA
Moleque, desliga esta merda e vai tomar banho que a sua irmã já saiu.

Moleque está assistindo na TV a uma série japonesa onde um robô e um monstro – ambos gigantes – lutam.

MOLEQUE
Já tá terminando... Eu já vou.

Dentro da panela a água começa a ferver.

MADRASTA
Filho da puta, vai agora!

Na TV um monstro destrói um prédio, o grande robô herói saca de sua espada.

MOLEQUE
Já tô indo.

MADRASTA
Você vai tomar banho agora, seu veadinho filho da puta!

A Madrasta pega a panela e joga a água na direção do Moleque. Moleque se esquiva e escapa. Ao seu lado, embaixo de uma coberta, ele pega uma espada e com um movimento muito rápido corta a cabeça da Madrasta. Espada ensangüentada. Atrás uma menininha nua observa a cena. Na TV o grande robô aplica um golpe fatal no mostro com sua espada poderosa. Moleque joga a espada ao chão. Espada ensangüentada. A espada “bebe” o sangue que jaz sobre sua lâmina.


13 Abril, 2011

Curtos

Pequena dramaturgia

Seis textos curtos de Johnny Kagyn

 

Índice

·         O Pequeno Ensaio Sobre a Redenção

·         Rio Seco

·         Monóxido de Carbono

·         Natalie

·         Nada parece tão bonito quanto um “Bloody Mary” do passado

·         Impune Quedar - Inútil apreciação da vida imóvel